Entenda a arquitetura do tecido conjuntivo no sistema musculoesquelético

Por que ela ainda é um parâmetro funcional negligenciado como propriocepção no aparelho locomotor?

* Foto: Johannes Freiberg em visita ao Plastinarium, no Fascia Research Society, na cidade de Guben, Alemanha.*

O sistema musculoesquelético é incrível. Além de proporcionar estabilidade e movimentação, ele tem uma ligação importante com o vascular, já que a contração dos músculos comprime os capilares dos vasos sanguíneos para que o sangue volte ao coração. Ou seja, nosso corpo é um processo consonante com o desenvolvimento da vida.

Infelizmente, com a correria imposta pelas rotinas atuais, nos vimos em novos estilos de vida que nos apontam a construção de problemas da saúde, como obesidade e sedentarismo. Do outro lado, o aumento da expectativa de vida é um ponto a ser considerado, um fato positivo,  mas também  desafiador para nós profissionais da saúde: o envelhecimento nos provoca a orientarmos nossa atenção para buscar soluções para manter-nos mais ativos do estávamos poucas décadas atrás e irmos na direção de melhor qualidade de vida, tendo no movimento um meio eficaz para tanto.

Dentro deste contexto, a arquitetura do tecido conjuntivo, incluindo estruturas como as fáscias, suas camadas e membranas em tramas tensionais imersas em substância fundamental, ajudam a regenerar o corpo. É, assim, mais importante para a compreensão do significado funcional do sistema musculoesquelético do que a própria anatomia tradicional, cujo método de dissecação negligencia e nega a continuidade do tecido conjuntivo como parte integrante da matriz do corpo.

A anatomia do tecido conjuntivo exibe duas tendências que estão presentes em todas as áreas do corpo de diferentes maneiras e relações. Nas cavidades corporais, a capacidade de se desconectar de espaços em formação permite mobilidade; entre órgãos e outras partes do corpo, essa dimensão conectada permite interações mecânicas funcionais. No sistema musculoesquelético, esses dois modos de organização do tecido conectivo também estão presentes. Eles não podem ser encontrados por um procedimento usual de dissecação analítica, pois nesse caso uma arquitetura de descrição se faz necessária.

Um coadjuvante fundamental

Neste post, vou contar porque a arquitetura do tecido conjuntivo é tão importante para o sistema musculoesquelético e porque ela é frequentemente negligenciada como propriocepção no aparelho locomotor.

Para isso, trago para nossa conversa um estudo realizado pela Universidade de Mastricht, na Holanda, pelo pesquisador e PhD Jaap Van Der Wal. Ele utilizou uma abordagem metodológica para descrever o funcionamento da região lateral do cotovelo. O resultado foi uma visão alterativa para a arquitetura do tecido conjuntivo na transmissão e transporte de forças sobre articulações sinoviais.

Ele considerou que era mais apropriado ter uma descrição de arquitetura dos tecidos conjuntivo e muscular organizada em série do que o conceito clássico de estrutura de forças passivas, como ligamentos organizados em paralelo às estruturas de transmissão de força, como músculos com tendões.

O papel dos mecanorreceptores

Segundo Van Der Wall, quando a função está sendo considerada, a discriminação entre os chamados receptores conjuntos e receptores do músculo é uma distinção artificial.  Por isso, os mecanorreceptores, também chamados de músculos receptores, foram organizados no contexto das circunstâncias de força – isto é, da arquitetura do músculo e tecido conjuntivo, em vez das clássicas anatômicas estruturas, como por exemplo músculos e ligamentos.

Observou-se que, na região lateral cubital do rato, um substrato mecanossensível ocorre nas áreas de transição entre as camadas do tecido conjuntivo denso regular e os fascículos musculares, organizados em série. Este substrato apresenta características do tipo e localização dos terminais nervosos mecanossensíveis, que geralmente são considerados “receptores de conjuntos” ou “receptores de músculo”.

Os receptores para propriocepção concentram-se nas áreas onde as tensões de tração são transportadas sobre a articulação do cotovelo. As estruturas não podem ser divididas nestes dois grupos – receptores de conjuntos ou receptores de músculo – quando a função das estruturas colágenas dos tecidos conjuntivos e muscular, em série, mantém juntas a estabilidade e a integridade da junta.

In vivo, essas estruturas de tecido conjuntivo são tensas durante os movimentos das partes do esqueleto, a princípio por causa da sua arquitetura. Receptores podem também ser estimulados por mudanças na tensão do músculo sem movimento do esqueleto, ou por movimentos do esqueleto sem tensão muscular. Existe uma relação mútua entre as estruturas e as funções dos mecanorreceptores e a arquitetura do tecido conjuntivo denso muscular e regular. Os dois são instrumentais na decodificação da informação proprioceptiva para o sistema nervoso central.

Importância do tecido conjuntivo no processo de propriocepção

Como conclusão, Van Der Wall afirma que, in vivo, a atividade de um mecanorreceptor é definida não apenas pelas suas propriedades funcionais, mas também pela arquitetura do meio ambiente. Se Abrahams, Richmond e Bakker afirmam que a topografia de mecanorreceptores fornecem uma subfunção comparativa no processo de codificação sensorial de eventos musculares, eles levantam um importante ponto de distribuição espacial de receptores no processo de propriocepção.

Para isso, precisamos somar a noção de que a arquitetura do tecido muscular e conjuntivo e a consequente distribuição do receptor desempenham papel significativo na codificação das informações proprioceptivas fornecidas.

Desta forma, é possível compreender a arquitetura do tecido conjuntivo no sistema musculoesquelético.

 

 

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